quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Celular 01

***Esta história foi o início de outro blog. Quem se interessar por mais, pode conferir no cOnto cOnta***

Ela tinha acordado cedo, como sempre fazia.
Mesmo sendo sábado, acordou cedo, e começou aquela arrumação básica da casa, rotineira. Arrumou a cama, o quarto, deu uma ajeitada no guarda-roupa. Colocou a roupa pra lavar, e ia começar a trabalhar na cozinha, separar as coisas para o almoço. Abriu a geladeira, tirou a alface, uns tomates, um pouco de rúcula ("hidropônica, que é mais gostosa"), e um peito de frango que passou a noite descongelando. Quando tinha acabado de colocar as coisas sobre o balcão, toca o celular.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Tá na hora de trocar esse toque", pensou e riu consigo mesma.
Olhou o visor, e quem é que estava chamando?!
Ele.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
Isso mesmo, era ele, o ex-namorado. Já tinha um mês e pouco que eles tinham terminado o namoro de três anos, e de repente, do nada, ele liga. "Mas a troco de quê?", pensou. Era muito estranho ele ligar...
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
E o telefone insistia. A mesma musiquinha, o nome dele piscando no visor. "Será que atendo? Mas pra quê?!?!"
O telefone para... Agora, só a mensagem de "1 chamada não atendida" aparecia no visor.
Silêncio total.
O barulho da água transbordando na bacia para lavar as verduras a traz de volta.
"Por que será que ele ligou? Ai, será que ainda quer conversar mais?"
De repente, de novo.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"E agora? Mas de novo? Será que atendo? O que será que ele quer?"
Talvez toda a discussão sobre a relação não tenha sido suficiente. Talvez ele ainda queria conversar mais um pouco. Mas quem quis acabar foi ele! A relação não dava mais certo, ele queria mais espaço, não queria magoá-la, mas não aguentava mais ficar ao lado dela.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
E dizer isso não magoa. "Haha! Hello?!" falou ela, pensando alto, rindo, tirando a rúcula e sacudindo, como se a coitada da hidropônica tivesse entendido a piada. E falasse inglês...
E o celular não parava!
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Mas será possível?!", falou alto novamente, agora encarando o telefone e o nome no visor.
Levou a mão e secou, como se fosse atender, mas o telefone parou.
Agora, podia-se ler "2 chamadas não atendidas".
"Ufa", pensou, "agora vou preparar o almoço". Colocou o arroz no microondas. "O que será que ele quer? Será que eu ligo de volta? Afinal, ele ligou duas vezes..."
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Três vezes!!! Deve estar de brincadeira..." pensou mais um pouco "Ou então o negócio é sério!"
Atendeu. A ligação, quase que instantaneamente, caiu.
"Caiu! Será que ligo pra ele? O que será que ele quer?"
E começou a lembrar que, quando conversaram, ele não parecia ter tanta certeza naquilo que dizia. Que pedia distância, mas que não parecia estar pedindo. Afinal, eles se davam tão bem! E ela gostava tanto dele! E sempre se fazia presente! Será que foi isso que estragou? Ou será que ele queria mais? "Vou ligar!", falou, apertando a rediscagem.
Tuuu... Chamou... Tuuu... Chamou... Tuuu... Chamou de novo, e nada de atender. Ela desliga. "Se quiser falar, ele que ligue!", e volta para sua salada, já encarando o frango, como preparar o bichinho.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Nããããão!!! Só pode ser brincadeira!" Atendeu, e só o que ouviu foi um chiado. Um barulho de respiração. Nada mais. Chamou por ele, mas ninguém respondeu, e novamente, a ligação caiu.
"Ai, Deus, será que ele se arrependeu? Será que está sem coragem de falar alguma coisa? Falar que quer voltar? Ele ainda me ama!!!" E começou a rir, se sentindo meio boba, mas feliz.
Apertou novamente a rediscagem, respirou fundo, e, depois do terceiro chamado, assim que ele atendeu, ela falou: "Se você não tem coragem de falar, não tem problema. Eu já respondo que tudo bem, e que aceito! Vamos conversar e resolver tudo!"... silêncio... "Eu também sinto sua falta, também lhe quero muito..."... silêncio... silêncio absoluto...
De repente, uma gargalhada do outro lado, e PÓF, desliga o telefone na cara dela.
Ela fica estática, e quando se recobra, coloca o telefone de lado e começa a esfaquear o frango. Alguém ia ter que pagar...

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Enquanto isso, o trombadinha que tinha acabado de roubar o celular dele se diverte.
"Peguei mais um! Otária! Daqui a pouco eu ligo de novo... hehehe"