quinta-feira, 13 de maio de 2010

Conversa com Vinicius de Moraes

Sabe, Vinícius, faz tempo que queria ter essa conversa com você.
Pode até ser meio tarde, já que eu vou acabar é falando sozinho pra você já do outro lado da vida, mas vale a reflexão.

Quando você escreveu que de tudo ao seu amor seria atento, antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto que mesmo em face do maior encanto dele se encantaria mais seu pensamento, você estava era fazendo uma bela de uma média, certo?
Calma, calma, estou apenas brincando. Concordo com você sim, principalmente sobre o encantamento que cega, mesmo em face do maior encanto. Nada mais se vê, nada mais se percebe, nem se sente. É aquele amor intenso, de mãos quentes. Aquele "amor-criança-mimada", que demanda toda a atenção pra si, não deixando nem perceber um inimigo que pode estar rondando à espreita. Por inimigo, pode ser alguém, pode ser a tentação, pode ser a fraqueza e até a rotina.

Queremos todos viver o amor em cada vão momento e em seu louvor, espalhar o canto e rir o riso e derramar o pranto, tanto ao pesar ou ao contentamento. Todos queremos nos entregar de peito aberto, mas será que estamos prontos pra isso? Os momentos desse amor forte nem sempre são de diversão e festa, tem vezes de monotonia, rotina, recolhimento até.
Cabe a nós transformar a rotina em aventura! Não buscar aventura, não, Vinícius. Você buscava, todos sabemos, poeta infiel. Mas há de concordar que a aventura com a pessoa amada tem um gosto diferente.
Quando caímos no marasmo ou naquele conforto incômodo, aquela incerteza de estar fazendo a coisa certa, antes de mais nada temos que buscar a paixão de volta, resgatar aquela sensação de namoro. Temos que conversar, vale até usar termos técnicos e fazer um Plano de Ação! Temos que dar uma chance à pessoa que prometemos amor pra vida toda, não acha?

E assim, quando mais tarde nos procure, quem sabe a morte, angústia de quem vive, quem sabe a solidão, fim de quem ama, nós possamos dizer do amor que tivemos:
Que seja imortal, sim! Ele é chama, mas só requer cuidado e combustível.
Que seja infinito, e não só dure. Que dure mesmo pra sempre, até o infinito.
Nosso tempo aqui nesta vida é tão curto, não temos porquê perdermos tempo pulando de relacionamento em relacionamento.

Bom, Vinícius, é isso. Agora volte a cantar com Tom Jobim aí onde vocês estão.

(O texto é uma reflexão sobre o Soneto da Fidelidade, de Vinícius de Moraes).