quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pequenos Gênios, Grandes Profissionais?

A vida anda engraçada, me trazendo antigos amigos de volta.
Esses dias reencontrei dois, Marcos Vinícius e Renata, que, por coincidência (quem sabe?), haviam ido tomar um café e comprar pão, respectivamente, na mesma padaria em que cheguei para um café da tarde durante as férias.


Foi um reencontro divertido, que fez Renata parar para um café conosco. Chegamos a ter a sensação de que nunca havíamos deixado de nos falar, tamanho eram o conforto e a fluidez da conversa. Lembramos dos tempos de escola, o que fazíamos, como éramos, as nossas preocupações na época. E atualizamos o que fazemos, em que trabalhamos, como está a vida, quem tem filhos, quem casou, quem separou, quem está feliz, e por aí foi.
Foi uma conversa divertida, animada, e chegamos a uma conclusão importante para nós três: éramos três gênios quando criança, éramos modelo para nossos colegas de escola ou até mesmo motivo de inveja ou ciúmes. Porém, crescemos e nossas habilidades diversas nos tornaram adultos que parecem comuns, "ordinary people", mas somos especiais, cada um a seu modo.
Deixa eu explicar.

Nós três éramos concorrentes na escola. Disputávamos o título de melhor aluno de cada bimestre, o que nos daria o título de melhor aluno do ano. Estudávamos sem esforço e o conhecimento fluía para nossas cabeças, pequenas esponjas com sede de saber, aprender. Éramos três nerds que ajudavam o resto de nossa turmas, já que não estudamos na mesma sala em todos os anos. Tínhamos respeito e consideração, já que conseguíamos explicar coisas de um jeito que nossos colegas entendiam. Eram crianças ensinando crianças. E isso nos fazia ser bem quistos por várias turmas, desde a dos mais descolados até a dos briguentos, marrentos. (Não se falava em "bullying" naqueles dias.)

Renata tinha muita habilidade com inglês, ciências que depois se tornavam química e biologia. Marcos Vinícius era bom com história, geografia e português. E tocava violino! Eu tinha a matemática e a física que fluiam sem esforço, mas eu era excelente em inglês, português, biologia, geografia, o que nos tornava competidores. Depois estudei piano, pintura e desenho. Éramos tidos como prodígios, e ganhavamos medalhas e diplomas pelas médias obtidas. E não pense que éramos ruins nos esportes! Renata era ótima no handbol, Marcos Vinícius na natação e eu, mesmo sem ter altura, ma dava bem no basquete e no vôlei.

Crescemos. O tempo passou e nos demos conta sim.
Renata casou com Cristiano e tiveram o Daniel. Ela é Engenheira Química, mas hoje trabalha com Moda.
Marcos Vinícius casou, mas se divorciou depois de 7 anos de casamento. Casou mais uma, separou-se. Morou junto e terminou novamente. Ele é Advogado e trabalha em um escritório, mas está se dedicando a ser um bom Home Broker.
Eu já casei e me divorciei, depois "casei" e separei. Sou Coordenador de Engenharia de Pré-vendas de hardware de computador, mas minha formaçao é Engenharia Civil.

Depois de um tempo, a conversa foi ficando séria, e começamos a especular porque é que as crianças prodígio de antes não são hoje Presidentes de empresas, VPs, Diretores. Que escolhas nós fizemos que nos tornaram profissionais com cargos intermediários, mesmo que exímios naquilo que fazemos? Será que optamos por uma vida simples? Deixamos passar  oportunidades?

Depois de um silêncio quebrado com uma piada de cada um, chegamos à conclusão que sim, fizemos nossas escolhas e podemos ter errado em algumas delas. A desvantagem de termos tantos talentos é que não tivemos foco em uma só coisa. Tornamo-nos profissionais multi-tarefa, ou multi-profissionais, em uma realidade em que os profissionais são cada vez mais específicos.
Lembramos de nossos colegas de escola que eram medianos então, mas que hoje são excelentes médicos, dentistas. Tem até um que era péssimo no geral, mas hoje é Analista de Riscos!
Nossas  habilidades nos deram cultura geral. Fale conosco sobre teatro e fale com nosso amigo Analista de Risco e sinta a diferença. Fale com o médico e o dentista que eram medianos sobre literatura e nos compare.

E lembramos da diferença salarial entre as profissões e do valor que cada pessoa dá ao dinheiro. Nós ganhamos bem, mas queremos mais, sem exagero. Fomos crianças de sorte, abonadas, que viveram em uma época em que nossos pais faziam o dinheiro render. Fomos jovens do Plano Collor, quando vimos nossos pais perderem muito e ali, aprendemos o valor real que as coisas tem. Aprendemos quem é o dono de quem, como canta Frejat. Passamos a ter respeito pelo dinheiro e plena consciência de que se ele vem fácil, precisa tomar muito cuidado com ele, porque ele também pode ir fácil.
Só que ter tido uma base sólida familiar e um passado abastado nos tornou mais mão-aberta. Queremos compartilhar ao invés de juntar para guardar. A Renata nos fez ver que temos planos para compartilhar o que ganharmos com família, amigos e amores. Não somos perfeitos! Somos pessoas que sentem.

Pra terminar, fizemos uma aposta: o que faríamos se nos tornássemos Presidentes de alguma grande corporação aos 40 e poucos anos? Ou se tivéssemos cargos bem maiores, que nos proporcionassem muito dinheiro. Ou até uma megasena, ou um plano de previdência premiado, ou um investimento acertado na bolsa, como aconteceu conosco, mas de proporções bem maiores.
Nossa resposta foi o que me fez pedir permissão a eles para publicar aqui esta historinha.

A Renata foi a mais ambiciosa e usaria seu dinheiro e seu status para alguma causa social. Usaria a moda para fazer trabalhos que ajudassem as pessoas carentes.
O Marcos Vinícius trocaria seu dinheiro e status para ter seu pai novamente, nem que fosse por um dia pra ter uma conversa. O pai dele faleceu cedo, de enfarte, e o MV era grudado com ele.
Eu pensei e os fiz sorrir quando disse que trocaria meu dinheiro por mais fornadas de cupcakes de cenoura com cobertura de chocolate saindo do forno, esperando chegar em casa. Além de ser chamado de piegas, quase apanhei. Com pés no chão, admiti que voltaria a trabalhar com construção civil, mas trabalharia com sustentabilidade. Ou ainda que traria este assunto para o hardware de computador, trabalhando com soluções mais verdes e menos lixo.

Rimos e cada um saiu com seu prêmio: troféu Madre Teresa, troféu Chico Xavier e troféu Roberto Carlos.

Combinamos de nos encontrar novamente e com mais frequência. Demo-nos metas para cumprir e um vai "cuidar" do outro para atingirmos os objetivos profissionais e pessoais juntos. Tomamos as rédeas de volta.
Alguém nos segure: os pequenos gênios estão de volta!